Da Potência Divina
Breves notas sobre unidade, multiplicidade, entre outros
[Nota: peço desculpas por qualquer falta de clareza no texto a seguir pelo fato de o mesmo não ter sido originariamente escrito como um texto conjunto e sim como um aglomerado de notas pensadas com intervalos de tempos separados e costuradas com algumas adições.]
Se concebemos o Ser como aquele que basta a si mesmo, postulá-lo como autocontido e não-produtivo, seria já postulá-lo como estéril e incapaz, isto é, como insuficiente, ao que se segue que o Ser, sendo suficiente a si mesmo, deve também ser capaz de compartilhar-se. De fato, poderia-se contra-argumentar ao afirmar que a criação é ela mesma um sinal de imperfeição, uma vez que toda ação tem um propósito, o qual, nas ações observadas entre os seres contingentes, é sempre distinto do agente, mas tal posição apenas contraria um Deus que buscasse por bens externos e não um Deus cuja atividade criativa fosse o próprio compartilhar de sua autosuficiência. Ademais, argumentar por um Deus que não cria por “não precisar" não é o mesmo que argumentar por um Deus que não cria por não poder. A problemática de que uma creatio ex materia é, então, necessariamente abandonada, uma vez que um princípio absolutamente passivo passa a ser não apenas ilógico, por, enquanto passivo, necessitar ter já sua realidade fundada em outro, mas também desnecessário, pelo Real ser infinitamente capaz de projetar realidades, onde a passividade dos seres deixa de ser um princípio independente por si mesmo e torna-se o mero ato de ser criado, como a khora platônica, que não existe por direito próprio, mas apenas como receptividade imanente aos seres atuais.
Ora, se a onipotência do Real implica na sua capacidade de fundar realidades derivadas, é notável que uma realidade completamente uniforme e auto-idêntica seria falha em expressar a plenitude de seu Autor. O que se segue daí é que à potência ativa infinita da Divindade a criaturidade deve responder através de uma infinitude de atos. É tal a fundação da indefinitude de formas reveladas a nós pela experiência. O “naturalismo” dos pagãos de outrora habitou precisamente no rastrear a multiplicidade de quididades da Natureza Naturada à Multiplicidade de Potências nas quais, e pelas quais, a Natureza Naturante as fundaria. Assim, Orfeu, por exemplo, ao cantar Perséfone como aquela que “revela sua sagrada forma no desabrochar dos verdes frutos” não faz mais que traçar o próprio fenômeno do desabrochar dos frutos de volta à sua fundação na Substância Universal. Os Deuses, como a Possibilidade Universal (δύναμις πάντων), não devem, entretanto, ser resumidos às categorias ônticas por eles regidas. Platão já nos diz (Crátilo 400d-e, Filebo 30d) que os deuses escolhem seus atributos em um ato de livre-vontade. O papel de um deus na esfera das possibilidades não é o de ser definido e sim de definir. Antes de tudo, os deuses são a possibilidade do próprio Múltiplo, aquelas unidades descritas por Plotino (tratado Sobre o Número) como reservando lugar aos entes. É na particularidade de cada deus que a diversidade dos entes derivados se funda. Em si mesmo, todo deus é, como Krishna foi descrito por seus devotos, sac-cid-ananda-vigrahah, isto é, a simples realidade, clareza e felicidade não poluída por qualquer condicionamento, apenas assumindo seu papel como ousiarca, isto é, como regente de uma determinação particular, em um ato de livre doação. De fato, se afirmamos a autosuficiência do Real como um para-si absoluto no qual o mesmo se entende e se ama absolutamente, é necessário não só que a onipotência divina se dê como onisciência e providência, ao entender e amar seus efeitos, mas também que cada transbordar-se da Divindade em uma possibilidade individual seja ele mesmo um para-si absoluto ao compreender-se como fundado na Divindade e, de certa forma, como a própria Divindade.



Muito interessante o texto!