Filautia
Breve reflexão
Contra Baader: se o autor é admirável em sua exaltação do amor, nas suas Vierzig Sätze aus einer religiösen Erotik, como fonte de toda legítima reunião entre os homens, é, entretanto, questionável sua rejeição, na sentença de número 11, de uma Selbstliebe (filautia) como sendo algo paradoxal. Afirmamos que se o autor pretendeu ver no amor a coincidentia oppositorum da atividade e da passividade em um mútuo afirmar da dignidade do outro, convém à filautia precisamente o papel de dignidade de si mesmo que deve estar ao lado da dignidade do outro para que ambos sejam realmente possíveis. Como Julieta diz a Romeu, “Minha bondade é como o mar: sem fim, e tão funda quanto ele. Posso dar-te sem medida, que muito mais me sobra: ambos são infinitos”, é, portanto, impossível que o amante legítimo veja a si mesmo como desprovido da dignidade que percebe em seu amado, uma vez que tal produziria não o amor e sim o que Baader corretamente chamou Erniedrigung (humilhação), da mesma forma como consideramos impossível que a filautia exista verdadeiramente naquele que rejeita a dignidade do outro, sendo inevitável, em tal situação, sua degeneração naquilo que Baader chamou Stolz (orgulho), onde lembramos a distinção entre filautia e egolatria afirmada por Aristóteles em sua Ética a Nicômaco. Tais observações são importantes aqui para que rejeitemos a exaltação de uma coletividade impessoal que possibilitou a apropriação do romantismo de outrora por movimentos totalitários. Para nós, o indivíduo enquanto desprovido de valor em si mesmo não pode entregar-se a uma comunidade em um ato de amor, mas apenas ser arrastado por uma força externa (“Quem foi que primeiro corrompeu os laços de amor e fez deles baraços?”, questiona Holderlin em seu hino O Reno). Por fim, observamos que se Baader, enquanto cristão, talvez tenha se visto como obrigado a tomar tal posição diante de seu credo (“Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo”), não temos outras palavras a citar se não as do próprio Cristo: “Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”.
“Conclui-se que nada é verdadeiramente amável, exceto o próprio amor; Porque no reino da mente e do coração, dignidade, receptividade e mérito são um só.”



Te descobri agora, parabéns pelo texto!
Bonito seu texto, parabéns!!!