Nos Sofrimentos de Werther
Diálogo para uma teodiceia
Inicia-se uma tempestade. Três homens — um artista, um professor e um padre — buscam abrigo.
Artista: — Vejam o quão bela e poderosa é a natureza. São momentos como esse que evidenciam para mim a existência de um sistema teleológico do universo.
Professor: — Vocês artistas sempre levados por suas impressões particulares, agindo como se as mesmas tivessem algo de um juízo universal. Não percebe que a tempestade que para você, abrigado em segurança, é motivo de prazer e exercícios das faculdades sensíveis é para incontáveis formas de vida lá fora um terrível momento de perigo e morte? Qualquer um que ao ver um cervo ser devorado por um leão, imagine um sistema teleológico universal deve ser considerado fora de sua razão. O que há nada mais é que o esforço de cada ente por sua própria preservação, não algum bem universal, mas bens particulares, cujo vir-a-ser pode muitas vezes implicar o mal para outros entes.
Padre: — Você e seu espinosismo. Sempre tão sonoros. Que Divindade mais cruel viria a estabelecer um mundo tão frio quanto esse de vossa opinião.
Professor: — Na verdade, o que faço é precisamente remover de Deus qualquer crueldade. Não mais o Deus pessoal das religiões de outrora que complacentemente cria um mundo onde o mal seja possível, mas apenas a lei inviolável da processão de infinitos modos a partir da Substância Universal.
Padre: — Acreditei que vocês espinosistas concordassem conosco em afirmar que o nome “Deus” não deve ser atribuído a um ser entre os seres, mas apenas ao Ser de todos os seres.
Professor: — E concordamos, afinal.
Padre: — Mas, então, não te parece um absurdo sua afirmação de que ao Ser pertença existir segundo uma lei exterior estabelecida seja lá por quem? Quer afirmemos essa lei universal como um produto do acaso ou da lógica, o que afirmamos é que aquele que dispõe todos os seres foi disposto por um dispor exterior. E se, pelo contrário, afirmamos que pertence à lei ter sido estabelecida pela própria Substância, o que afirmamos, então, é a autonomia absoluta do Ser. Não foi o próprio Espinosa quem definiu como livre “a coisa que existe exclusivamente pela necessidade de sua natureza e que por si só é determinada a agir”?
Professor: — Mas em nada tal liberdade contribui para sua posição acerca de uma personalidade divina. Se pretendes, como me parece, afirmar que a Divindade esteja fundada em si mesma, o que, de fato, é verdadeiro, não há nada que implique em tal causa sui, para utilizar a expressão de Espinosa, a natureza de uma consciência.
Padre: — Ora, se aquele que é a causa de si mesmo existe da forma indiferente que você procura afirmar, seria necessário, então, retornar à afirmação do mesmo como um ente iniciado por um movimento exterior, do qual seria mero receptor. É fundamental à Liberdade originária que a mesma seja capaz de iniciar-se por si mesma, isto é, que em tal Liberdade haja não apenas uma cognição de sua própria existência, mas também uma volição. Deus, como nos diz o apóstolo João, é amor.
Professor: — Um admirável discurso sobre as coisas divinas você faz, meu amigo. Entretanto, ao perseguir sua noção de uma Divindade pessoal não percebe como chegou ao exato oposto? Esse Deus infinitamente contente e pleno em si mesmo ao qual tão nobremente demonstras não seria mais similar aos deuses de Epicuro, que, absolutamente inviolados em sua própria felicidade, ignoram as realidades inferiores, que às divindades providenciais que vós defensores da vida religiosa até então afirmaram?
Padre: — Diga-me, meu amigo: não foi-te convincente minha demonstração de que a Divindade, ao existir absolutamente por sua própria causalidade, exista em um conhecimento e amor absolutos por si mesmo?
Professor: — De fato, foi. E é por isso que questiono como tão alegre Divindade se rebaixaria à providência sobre as coisas inferiores.
Padre: — Acha possível que alguma coisa exista sem que a mesma seja participante no Ser?
Professor: — Seria a mais absurda das loucuras afirmar isso.
Padre: — Então, qual deficiência teria de se lançar sobre o Ser para que, conhecendo e amando a si mesmo absolutamente, não conhecesse e nem amasse aqueles que apenas existem por receberem de sua causalidade? Que cegueira teria de se abater sobre ele para que seu conhecimento e amor não fossem tão longe quanto o seu ser?
Artista: — Temo que o cerne da questão levantada por nosso amigo ainda não tenha sido tocado.
Padre: — Como assim?
Artista: — Sua afirmação de que o mundo no qual habitamos não contenha nada de absolutamente belo ou justo em si mesmo, mas apenas momentos de relatividade, propícios para algumas de suas partes e prejudiciais a outras.
Professor: — De fato. E está mesmo reinvindicada a afirmação de que a Divindade criadora de um mundo como tal deveria ser partícipe em alguma forma de crueldade. Creio que à Divindade providencial que até então se buscou demonstrar seria preferível a não-criação de um mundo que uma obra tão vazia quanto aquela que a investigação natural nos mostra.
Artista: — Não percebe que a visão de mundo que procura fundamentar é não apenas desprovida de beleza, mas alheia a toda noção da mesma?
Professor: — Em que sentido?
Artista: — Passemos da beleza estética para o exemplo talvez mais palpável da beleza moral. O mundo que você descreveu até então é certamente completo em descrever a complementaridade entre os bens e males naturais como bens e males relativos nos quais o ganho de uma parte é a perda de outra, mas não lhe parece ser a afirmação da existência de bens e males morais pelo senso humano justamente a afirmação de que algumas ações sejam absolutamente boas por si mesmas independentemente de qualquer ganho ou perda deles decorrente, assim como, pelo contrário, algumas seriam tão fundamentalmente nefastas que nenhum ganho decorrente das mesmas permaneceria digno?
Professor: — É, de fato, uma ideia fundamental ao que até então foi o senso comum de nossa espécie, mas atribuí-la qualquer autoridade é tão valoroso quanto valorizar o engano de um homem que, avistando uma serpente, buscasse tocá-la crendo ser uma corda. Quer proteja a si mesmo movido pelo instinto de autopreservação, quer estenda tal desejo a outras formas de vida em uma extensão do mesmo instinto, pertence ao homem uma ilusão fundamental na qual acredita ter nesses atos não a reação de instintos naturais, mas sim um imperativo moral.
Artista: — Ora, sou obrigado, então, a questionar-lhe se o homem que avistando uma serpente pensou ter visto uma corda poderia ter passado por tal engano se já não possuísse o conceito de uma corda impressa em seu conhecimento?
Professor: — Com toda a certeza, não.
Artista: — Nesse caso, se, por um lado, admito que ao homem é certamente possível a confusão dos bens relativos com os bens absolutos, sendo tal erro a origem de uma diversidade de falhas morais entre nós, tal confusão, por outro lado, jamais seria possível se já não possuíssemos em nós a noção inata de um bem cujo valor habite em si mesmo sem qualquer necessidade de um fim externo.
Professor: — Sou obrigado, então, a lhe questionar onde o homem encontrou fundamento para que tal ideia viesse a ser concebida. É fato, afinal de contas, que não há no homem, enquanto ente finito, condicionado e relativo, espaço para nada mais que relações com outros seres da mesma ordem. Somos entes que antes de tudo buscam expandir sua existência em meio aos demais entes que em todo ponto nos limitam. Qualquer afirmação de um bem moral absoluto e fundado em si mesmo deve antes de tudo ser capaz de explicar como é que à nossa natureza tornou-se possível a idealização de tal bem.
Padre: — Mas não teria eu, no início de nossa atual conversa, me esforçado por demonstrar a existência de um fundamento livre de todas as coisas que existem e que por e em si mesmo fundaria sua própria dignidade?
Professor: — Corretíssimo o senhor afirma, mas não percebe a armadilha na qual se emaranhou com tal demonstração?
Padre: — E qual seria?
Professor: — Não percebe que ao demonstrar a natureza de Deus como Liberdade absoluta não deixou opção às criaturas que não a de serem meros fantoches nas mãos divinas? Não foi Espinosa quem definiu como coagida “aquela coisa que é determinada por outra a existir e a operar de maneira definida e determinada”? Se Deus é a Liberdade que livremente inicia toda série causal, apenas resta às criaturas serem etapas dessas mesmas séries, completamente constrangidas pela lei da causalidade. Deus deve, portanto, ser um grande mestre de brinquedos para o qual todos os bens e males que se dão entre as criaturas não sejam nada mais do que exercícios de seu poder.
Padre: — Creio que está em todo enganado sobre o sentido da criaturidade.
Professor: — Explique.
Padre: — Lhe parece verossímil afirmar que Deus ganhou algo ao criar o mundo?
Professor: — Com certeza dizer que aquele que é autossuficiente em todos os sentidos possíveis ganhou algo por uma existência externa seria um absurdo sem tamanho.
Padre: — Então qual você diria ser o motivo da criação?
Professor: — Se, como sua linha de raciocínio nos leva a aceitar, Deus é em todos os seus aspectos livre, certamente não o foi de forma indiferente, como se seu existir tivesse transbordado sem que houvesse qualquer conhecimento ou vontade em relação a tal.
Padre: — Se exige-se que a criação tenha ocorrido por um fim, mas também que esse fim não tenha sido algum bem para o próprio Criador, não seria forçoso admitir que tal fim tenha sido o bem de outros? Deus, sendo perfeito em si mesmo, desejou que outros pudessem participar em sua perfeição. A criação é, portanto, nada mais que auto-doação.
Professor: — Creio que falas com a verdade.
Padre: — Mas, então, como seriam as criaturas meramente constrangidas pela necessidade às quais você descreveu capazes de participar em tal nobreza? O que haveria em tal caso, como você mesmo afirmou, seria não mais que uma coleção de fantoches nas mãos da causalidade, nos quais toda aparência de personalidade revelaria-se um produto de instintos naturais, incapaz de qualquer testemunho legítimo ao milagre do Ser.
Professor: — Mas não percebe o problema em sua posição?
Padre: — E qual seria?
Professor: — Se deve pertencer ao homem uma liberdade anterior a todo o ser-determinado de sua criaturidade, tal liberdade deve ser concebida como divina ou criatural? Se divina, seria o mesmo que dizer que Deus não compartilhou de sua nobreza, mas apenas assumiu máscaras para que pudesse enganar a si mesmo. Se criatural, que força há na criatura, cuja existência constitui-se justamente em ser determinada, para determinar-se a si mesma?
Padre: — Me parece que pela resposta à sua questão estaremos respondendo ao problema acerca da insubstancialidade de toda criatura diante do Ser divino. Deve ser dito por nós que antes que qualquer determinação possa apoiar-se na criatura, a mesma deve existir em seu fundar-se na auto-doação divina. Estamos diante daquilo que o tão santo Dionísio descreveu como o eros epistreptikos ou amor reversivo no qual a criatura se põe diante do eros pronoetikos ou amor providencial da Divindade.
Artista: — Martin Heidegger, na sua Carta Sobre o Humanismo, afirmou ser o homem a gegenwurf ou contrapartida diante do entwerfen ou projetar do Ser. Correndo o risco de sermos acusados de devolver Heidegger à metafísica, devemos dizer que pertence à criatura precisamente o colocar-se diante da Divindade.
Padre: — Exato, caro companheiro. Foi Rumi quem afirmou, no seu Fihi Ma Fihi, ser a possibilidade do mal moral fundamental para que o bem seja possível ao homem enquanto ato de escolha ao invés de força. Chegamos nós à conclusão de que o decidir pelo mal seja a rejeição ao colocar-se diante do Ser divino.
Professor: — Creio que seguindo essa linha de pensamento os senhores terão de abandonar a autoridade de Aristóteles.
Padre: — Em que sentido diz isso?
Professor: — Não teria o estagirita afirmado a theoria ou contemplação da Divindade como causa final de todas as causas finais? Que outra finalidade, então, seria essa capaz de situar-se não abaixo da theoria, mas ao lado, constituindo uma alternativa à vida virtuosa do homem?
Artista: — Creio que não uma finalidade propriamente dita, mas sim a desistência de toda finalidade. Aquilo que Fichte tão propriamente chamou faulheit ou indolência. Lembremos do que Kant nos diz: o traçar do condicionado ao Incondicionado não se dá apenas pelo belo, mas também pelo sublime. Novalis em um de seus fragmentos é mais explícito em afirmar que Deus é para os espíritos como um paradoxo no qual atração e repulsão coincidem. Digamos, então, que deve pertencer ao homem a possibilidade fundamental de, colocado diante do Infinito, afirmar tal posicionar-se como um esforço grande demais para sua própria finitude e retirar-se.
Padre: — Creio que em nossa busca pela raiz do mal moral encontramos até mesmo a raiz dos assim chamados males naturais. Que outra alternativa deve possuir a criatura após abandonar o Infinito e a Liberdade que não agarrar-se à sua própria finitude e, portanto, à necessidade. A falha em colocar-se diante da Vontade divina deve ser, desse modo, o colocar-se da vontade particular, na qual nada pode haver além do apego a finitudes.
Artista: — Se o Ser é, como nos diz Vicente Ferreira, orientação, Werther descreveu nobremente seu adoecer diante do mal desse mundo como uma retirada do Espírito divino e, portanto, como uma perda de sentido. Hipérion, por outro lado, não foi menos nobre em nos dizer que tal perda não seja mais que um cegar-se do próprio homem por sua insolência de existir por si mesmo.
Professor: — Mas se todo apego à finitude deve originar-se de um abandono consciente da Infinitude, o que dizer do número incontável, talvez mesmo infinito, de seres vivos que, desprovidos da liberdade moral concedida ao ser humano, sofrem pelos males naturais a todo momento nesse mundo?
Padre: — Lembro-me de Schelling, no seu Freiheitsschrift, atribuir a Baader a afirmação de que ao homem apenas pertence estar acima dos animais, pela virtude, ou abaixo, pelo vício, mas jamais no mesmo nível. Não deveríamos dizer como um ato da misericórdia divina que se tenha permitido a existência de uma miríade de seres que, cegos à Liberdade originária, não são apenas privados do bem moral, mas também poupados do mal?
Artista: — Um dos fragmentos de Novalis me vem à memória por afirmar a missão do homem como sendo a educação da Terra. Devemos dizer que ao destino do homem se atribui, enquanto único ente em todo o alcance terreno dotado de liberdade moral, o cultivo e o cuidado da esfera terrena como obra da mesma projeção à qual o homem se remonta.
Professor: — A que profundidade do pensamento nossa conversa chegou, meus amigos. E creio que mesmo minha questão originária tenha chegado a uma resposta.
Padre: — Qual questão?
Professor: — Aquela sobre como seria possível atribuir a um fenômeno natural como a tempestade um sentido além do mero estímulo das sensações?
Artista: — E a qual resposta o senhor crê ter chegado?
Professor: — Qual outra senão a afirmação de toda finitude como finitude? Que não a afirmação de uma realidade que existe de forma independente a nós e que nobre a autossuficiente segue seu próprio curso?
Artista: — A que conclusão maravilhosa chegou, amigo. E no tempo ideal, ainda por cima. Não percebem como a tempestade chegou ao seu fim? Já Hélios irrompe por entre as nuvens.
Professor: — Até a próxima, amigos. Tenho meu caminho a seguir.


