Sofrimento e Aflição
Comentários a Simone Weil
“Tanto quanto a verdade é algo diferente da opinião, a aflição é algo diferente do sofrimento. A aflição é um dispositivo para pulverizar a alma; o homem que cai na mesma é como um trabalhador que se prendeu em uma maquina. Ele não é mais um homem, mas um trapo rasgado e sangrento nos dentes de uma roda dentada.” — Simone Weil, La Personne et le Sacré
Se ao homem pertence carregar a contradição entre sua natureza como entidade finita e sua natureza como sacerdote da Divindade, é inevitável que a cada um desses momentos de nosso ser se atribua uma vontade própria e, portanto, um “bem” e um “*mal” próprios. O “sofrimento”, como o chama Weil, não pode ser mais que o mal sofrido por nossa natureza finita, como uma diminuição imposta ao nosso poder de agir sobre os demais entes, para citar a Ética de Espinosa. O mais terrível dos ferimentos pode nos dar apenas sofrimento, independente do quão intenso seja o mesmo. Como Weil nos aponta, o sofrimento pertence à nossa individualidade natural, ao nosso ego, mas a “aflição”, por sua vez, pertence ao fundamento supra-individual em nós. A aflição não se dá em referência ao que é mal diante de nossa vontade particular, mas sim ao que é mal diante da própria vontade divina. Assim como Aristóteles (Ética a Nicômaco 9. 9.) nos diz que somos felizes ao contemplar no outro a virtude que devemos carregar em nós mesmos, a aflição é o horror que se dá em nós diante do mal moral. A vitima de uma agressão sofre na dor que lhe é imposta, mas se aflige na contemplação do mal em seu algoz. No mesmo sentido em que a Divindade é o Mysterium Magnum, o bem ou o mal morais em nós são também mistérios, o ato mirífico no qual a própria Liberdade nos torna livres em nossa participação em Si. A aflição, portanto, pode apenas ser o colocar-se diante do mistério do mal, o lamento “Por que estou sendo ferido?” descrito por Weil. No mal, a liberdade concedida a nós se coloca contra si mesma, como que assustada diante da transcendência do Infinito sobre nossa finitude, diante do Sublime. O mal, portanto, refugia-se na finitude e revolta-se contra a infinitude onde quer que a encontra. Se a vontade criatural em nós e nos demais seres vivos é simplesmente cega à nobreza inata de todo ente, o mal é algo a mais. O mal vê a nobreza e a detesta, pois não pode tolerar que a Divindade à qual rejeitou esteja em algum lugar — Satanás chora a todo tempo, nos diz Dante. É essa a gênese da aflição: o mal deseja ardentemente que todo ente existente seja reduzido ao estado de engrenagem no movimento natural, que toda nobreza inata seja abdicada. A vítima se aflige diante do ferimento de sua nobreza pelo algoz. Se, como nos diz Wittgenstein, o Sentido da existência deve ou preenchê-la, ao ser afirmado, ou esvaziá-la, ao ser negado, a aflição é precisamente o estado de ser forçosamente arrastado ao ponto no qual todos os fatos mundanos pareçam sem-sentido, a um mal diante do qual só o mais santo dos homens poderia manter-se firme. “Homens que estão tão afastados do bem que buscam espalhar o mal por todo lugar podem apenas ser reintegrados com o bem ao ter o ferimento inflingido sobre eles. Isso deve ser feito até que a parte completamente inocente de suas almas acorde com o lamento de surpresa “Por que estou sendo ferido?” A parte inocente da alma do criminoso deve, então, ser alimentada para que cresça até que se torne capaz de julgar e condenar seus crimes passados e, por fim, com a ajuda da graça, perdoá-los”, continua Weil. “A arte da punição é a arte de despertar em um criminoso, pela dor ou mesmo pela morte, o desejo pelo puro bem”. Já em Platão (Górgias 525b, República 380b, Leis 862d) a natureza catártica da punição se afirmava. Em Grande Sertão: Veredas, Riobaldo, por sua vez, atribui a Zé Bebelo o dito: “a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter”, assim como as tradições de cavalaria islâmicas possuem histórias semelhantes sobre o Imam Ali ter condenado a morte movida pela raiva. “Mas nós perdemos toda ideia do que é punição. Nós não temos consciência de que seu propósito é procurar o bem para um homem. Para nós, ela se limita a infligir dano", diz Weil.


